“A maior parte das pessoas tem dificuldade em perceber que a dimensão social não tem de ser afetada por isso [veganismo]”

Entrevista a Bruno AlvesWeggan Agosto

Quando vimos, pela primeira vez, o Instagram do Bruno Alves, foi como se entrássemos numa bolha de positivismo. Nascido e criado em Lisboa, tem 29 anos, é assistente de bordo e todas as suas fotos têm uma espécie de luz e foi por essa energia que nos deixámos contagiar.

W: Há quanto tempo és vegan?

B.A: Sou vegan há cerca de cinco anos. Inicialmente, estava só à procura de um estilo de vida e uma alimentação mais saudáveis. Comecei por ter uma alimentação crudívora. Essa decisão surgiu de um artigo que li, sobre umas civilizações que viveram entre o Paquistão e a Índia, e que falava sobre os benefícios que essa alimentação trazia para a saúde. Aproveitei esse mês que estava fora, na Argélia, onde a gastronomia não é propriamente cativante e pensei “vou experimentar”. Comprei imensa fruta e legumes, coisas que conseguia comer facilmente cruas e correu muito bem. Entretanto, voltei para Lisboa e percebi que não era assim tão fácil. Em termos sociais, não podia jantar em lado nenhum, não podia visitar ninguém e passei para 60/40, sendo que 60 era o que comia em casa e 40 o que tinha que comer fora. Mas também era complicado. Então passei só para o pequeno almoço e as minhas tigelas. Comia tudo, carne inclusive, mas continuei sempre a procurar mais sobre alimentação saudável, comecei a pesquisar mais sobre vegetarianismo, onde podia ir buscar o quê. Isto porque eu não gosto de tomar decisões que não estejam bem fundamentadas e estruturadas, porque se não for dessa forma sei que eventualmente vou acabar por desistir. Estive dois meses a ler intensivamente sobre isso, não sobre o porquê de ser vegetariano mas mais sobre o como ser vegetariano. Entretanto – e eu acredito que as pessoas passam na nossa vida por uma razão – conheci um rapaz que era vegetariano e que me falou mais sobre isso, acabando por me fazer ver o documentário “ Cowspiracy”. E foi aí, de um dia para o outro, que a minha alimentação mudou.

W: Tornaste-te logo vegetariano?

B.A: Comecei por ser ovolactovegetariano, por falta de conhecimento, pois não tinha noção de como era a indústria do ovo e a do leite. Mas reparava que, muitas vezes, eu partilhava receitas nos grupos de vegetarianos e as pessoas reagiam muito mal por incluírem ingredientes de origem animal. Então, comecei a ver vídeos da indústria dos ovos e dos laticínios e pronto… passei a noite toda a chorar [risos]. Mas mesmo toda. Foi aí que nesse dia, ao pequeno-almoço, decidi “Já chega!” e decidi cortar também com os ovos, leite e laticínios. Na verdade, em casa, de laticínios, eu só comia queijo mas, por exemplo, se estivesse num hotel e tivessem croissants eu comia. Não comia os ovos, mas comia uma fatia de bolo, era por aí. Era só mesmo por desconhecimento que eu o fazia.

W: Tens uma vida em que viajas bastante e, mesmo assim, consegues sempre manter o estilo de vida vegano em todas elas. Qual foi o sítio onde consideraste mais difícil fazer as refeições?

B.A: As pessoas perguntam-me muito isso, mas eu nunca senti dificuldades. Tem muito a ver com a tua capacidade de perceber que tens de fazer ajustes. Se, por exemplo, eu estou na Arábia Saudita, eles comem imensa carne, mas há sempre um supermercado. A maior parte das pessoas tem dificuldade em perceber que a dimensão social não tem de ser afetada por isso. Podia comer no quarto arroz, saladas, feijão enlatado, algo que encontrasse no supermercado e depois ir com os meus colegas ao restaurante e comia acompanhamentos, algo do género. Se tu chegares a um restaurante e vires os pratos, se o prato tem feijão preto, batata, arroz, certificas-te que não tem nada de origem animal, podes perfeitamente adaptar-te a isso. É uma questão de fazer este jogo, e aí é que está a maior dificuldade das pessoas, não se querem adaptar. Em cinco anos, só houve um sítio onde não consegui adaptar um prato, comi salada com batata frita e pão [risos].

W: A tua conta no Instagram é como entrar numa dimensão diferente, onde é tudo muito agradável e positivo.

B.A: A sério? [risos] Isso é fantástico, obrigado. O meu objetivo passa muito por aí. Hoje em dia, as pessoas são muito focadas nas redes sociais, mas mais em comprar e vender coisas e esquecem-se do resto. Não é propriamente a minha intenção. A minha intenção passa mais pela questão: se podemos partilhar coisas positivas e influenciar as pessoas a gostarem de si e a serem melhores, porque não?

W: Tiveste sempre este estilo de vida mais minimalista?

B.A: Não. O veganismo mudou não só a minha perspetiva em relação aos animais, ou ao ambiente, mas também me despertou a consciência relativamente a outras coisas. A forma como me comporto, como falo com as pessoas, o porquê de certos comportamentos e o meu desenvolvimento pessoal… Tudo isto acabou por ser muito explorado pelo veganismo. E o minimalismo acabou por ser uma consequência desse estilo de vida. Por exemplo, eu sentia muito stress por ter muita roupa, o momento de escolher roupa era complicado. Às vezes tinha de pedir ajuda a outras pessoas para escolher o que ia vestir, o que era ridículo [risos]. Hoje em dia, tenho três ou quatro pares de calças, meia dúzia de camisas e quatro ou cinco t-shirts, nunca tenho de me preocupar com isso, porque fica tudo bem. E percebi que muita gente de sucesso também é assim. O Steve Jobs e o Mark Zuckerberg são pessoas simples, com uma vida simples e com pouco stress no que se refere a roupas. Eu não levo nada para minha casa que não utilize ou que vá estar muito tempo parado e isso acaba por ser uma forma de também ter sempre a casa organizada.

W: O que é que gostas mais no teu trabalho?

B.A: É mesmo a parte das viagens! Eu não me imagino a trabalhar numa companhia sem estadias, por exemplo. Gosto muito de ficar nas cidades para poder explorá-las e também do contacto com as pessoas. Quando falo em explorar as cidades refiro-me a experimentar espaços veganos [risos], gosto muito, mesmo em Casablanca encontrei um espaço com um hambúrguer vegetal, confesso que não era muito bom mas estava lá. É muito interessante perceber que, mesmo em culturas mais fechadas, essas opções existem.

W: O que gostas de fazer nos teus tempos livres?

Gosto imenso de passar tempo comigo próprio: gosto de estar em casa, de ir ao cinema sozinho e, apesar de as pessoas não perceberem isso muito bem, gosto de ir almoçar ou jantar sozinho. Também gosto de ter companhia, claro, mas aprendi a gostar de estar comigo próprio. Eu sei que é estranho para as pessoas [risos]. As pessoas, às vezes, prendem-se muito à dimensão social da sua vida, que é importante, mas também é muito importante estares contigo mesmo e olhar para ti de outra forma. Adoro cozinhar, gosto mesmo muito. Não sou um cozinheiro espetacular, mas gosto muito de experimentar pratos novos. As minhas receitas são sempre o mais rápido e fácil possível e, apesar de parecerem muito complexas, não são na verdade!

W: O que podemos esperar para o futuro?

B.A: Quando comecei nisto do Instagram, a fazer as minhas tigelas, tinha também uma página que se chamava “My bowls” e pensei em criar um espaço meu, mas não tinha tempo. Eu sinto que em tudo o que eu me empenho consigo ser minimamente bom e isso, às vezes, causa uma dúvida – “Para que lado me vou virar?” – pois tenho imensas ideias de negócio. Algumas passam pela comida, outras não, mas posso dar-vos uma notícia em primeira mão: vou, de certeza, lançar um livro, aliando o veganismo ao desperdício zero. E mais não posso dizer. Este é o projeto que tenho mais ativo neste momento, mas não ponho de parte ter um espaço meu.

W: E quanto ao teu trabalho ?

B.A: Gostava muito de, na companhia onde eu trabalho, ser uma voz mais ativa do veganismo. Nós temos refeições vegetarianas estritas (ou pelos menos é essa a intenção) mas quase sempre acabam por ter algum ingrediente de origem animal: manteiga ou até bolachas que não são 100% vegetais. Já nos juntámos para falar com a companhia sobre isso e mostraram-se recetivos, mas, às vezes, ainda há falhas a esse nível. Gostava também de mudar as refeições, até mesmo porque as refeições não são muito atrativas, quer em termos nutricionais, quer em termos de sabor, e mesmo em relação ao desperdício zero. Gostava mesmo muito de fazer parte de toda esta mudança. Eu tenho que desligar o chip quando estou a trabalhar. Em relação aos animais e ao desperdício, é mesmo chocante.

Conhece o famoso Instagram do Brunoe lê a Weggan de Agosto.

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