“Cresci como a maioria dos portugueses, com a ideia de que a carne e o peixe eram obrigatórios…”

GABRIELA OLIVEIRA – Autora dos livros de cozinha vegetariana mais vendidos em Portugal

W: Sabemos que é vegetariana há mais de 20 anos. O que a levou a tomar essa decisão?

G: Mudei quando tomei verdadeiramente consciência de que existiam alternativas à carne e ao peixe, e que podia decidir o que colocava no prato. Cresci como a maioria dos portugueses, com a ideia de que a carne e o peixe eram obrigatórios, até perceber que apenas precisamos de garantir os nutrientes e que existem diferentes formas de os obter. Sempre me custou imenso ver os animais a sofrer e a morrer para depois serem esquartejados, cozinhados e servidos como refeição. Cheguei a assistir a vários abates de animais e não é um cenário nada agradável… A forma como eles tentam escapar é algo arrepiante e marcante. Não queria continuar a pactuar com essa situação. Podia mudar e foi o que fiz.

W: Como foi nessa altura a sua transição?

G: A transição foi brusca e repentina, simplesmente deixei de conseguir comprar carne e peixe. A partir daquele momento, já não os via como comida, eram pedaços de corpos que eu não queria continuar a comer. Abri o congelador e retirei tudo o que lá estava, foi quase impulsivo. Depois empenhei-me em descobrir as combinações dos alimentos que garantissem os nutrientes necessários. Na altura havia menos oferta de alimentos vegetarianos e pouca informação, a Internet ainda estava a desabrochar e o tema era pouco falado.

W: Para si foi um processo fácil? As pessoas à sua volta não acharam estranho?

G: Como na altura já cozinhava e preparava as minhas refeições, não foi difícil tomar a decisão. O que me custou foi a falta de oferta quando comia fora de casa e a incompreensão e até mesmo hostilidade por parte de algumas pessoas menos informadas. A família alargada pensava que seria uma fase passageira, um desaire momentâneo que iria passar. O tempo mostrou o contrário, sou vegetariana há 22 anos e tornei-me vegan há seis. Quando a mudança ocorre por razões éticas, como foi o meu caso, a motivação para continuar nunca acaba, é fortalecida mesmo quando há adversidade.

W: Sente que hoje há muito mais abertura?

G: Hoje fala-se incomparavelmente mais destas questões. As razões ambientais e a tomada consciência do enorme impacto da indústria pecuária tem feito com que muitas pessoas considerem seriamente a opção vegetariana. Algumas começam por deixar a carne, depois o peixe e os laticínios. Sente-se que há uma mudança a acontecer. Mesmo quem não tenciona tornar-se vegetariano, reconhece que é bom fazer algumas refeições vegetarianas, para proteger a saúde, prevenir doenças e contribuir para uma vida mais sustentável. Já é um bom começo.

W: É jornalista. O que a fez começar a escrever livros de culinária vegetariana?

Gosto de pesquisar, escrever e comunicar, e entusiasma-me a ideia de poder comunicar através da gastronomia, dos sabores e dos aromas. É algo que une as pessoas, que as pode conquistar. Quando trabalhava apenas em jornalismo, aproveitava todas as oportunidades para abordar o tema do vegetarianismo, mas sentia que faltava informação prática que facilitasse a mudança e que incentivasse mais pessoas a explorar a culinária verde. Publiquei o primeiro livro há mais de dez anos, sobre alimentação vegetariana para crianças, e depois iniciei uma coleção de Cozinha 100% Vegetariana, inteiramente vegan, que foi uma grande surpresa e um sucesso, pois o primeiro livro entrou logo para o top de vendas. Esse livro (Cozinha Vegetariana para quem quer Poupar) ainda é dos mais vendidos neste segmento. Mais recentemente publiquei o Cozinha Vegetariana à Portuguesa, que está na terceira edição. Queria tornar a alimentação vegan acessível e atrativa. Acho que consegui.

W: Quando cozinha para si e para a sua família segue alguma receita?

G: Sim, tenho muitas vezes os meus livros abertos na bancada da cozinha quando estou a cozinhar, embora tenha a maioria das receitas na cabeça. Os meus filhos às vezes pegam nos meus livros e noutros como se fossem um menu do restaurante e fazem pedidos.

W: Sabemos que escreveu um livro sobre a importância dos avós no crescimento das crianças. Porque o acha tão essencial na sua opinião?

G: Os avós podem funcionar com um pilar de segurança, um porto de abrigo quando as coisas correm menos bem na família. São muitas vezes uma referência para os mais novos e podem dar um apoio muito importante quando os casais ou as famílias monoparentais têm crianças pequenas. Tenho três filhos e nem sempre pude contar com o auxílio dos avós. Talvez por isso, e por ter crescido com a minha avó materna muito presente, valorize ainda mais o papel dos avós. Vivemos um momento peculiar na história, que dificilmente se repetirá: é o chamado fenómeno da multiplicação dos avós e da escassez dos netos. As gerações mais velhas tiveram vários filhos, foram pais muito cedo, e agora vivem mais tempo devido ao aumento da longevidade. Pelo contrário, os mais novos optam por não ter filhos ou apenas um e depois dos 30 anos. Ora assim, temos muitos avós e bisavós para poucos netos ou netos- únicos.

W: Os seus filhos são vegetarianos?

G: Sim, desde a barriga da mãe. Já era vegetariana antes de engravidar e o meu marido também, por isso fazia todo o sentido que os nossos filhos seguissem o mesmo regime alimentar. Na altura, pesquisei imenso para reunir informação sobre a alimentação vegetariana na infância. Agora os pais têm a tarefa facilitada pois a Direção Geral da Saúde em Portugal publicou manuais eletrónicos sobre o tema. Não me canso de citar uma das frases publicadas: “as dietas vegetarianas, quando apropriadamente planeadas, incluindo as ovolactovegetarianas ou veganas, são saudáveis e nutricionalmente adequadas em todas as fases do ciclo de vida, podendo ser úteis na prevenção e tratamento de certas doenças crónicas”.

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Entrevista realizada para a Revista Weggan de Maio de 2019.

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